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sábado, 18 de abril de 2009

A visita ao Asilo

Era tarde quando chegamos, estavam oferecendo um chá, estava muito animado. Os idosos, sorrindo muito, pareciam ter rejuvenescido muitos anos.

“E pensar que aqui existem pessoas cujos familiares não vem visitá-los há muitos, muitos anos... Isso é crueldade. Nossa sociedade, ao contrário da oriental, não respeita os mais velhos. Os idosos são sábios, deveriam ser conselheiros dos jovens. Eles já viveram tanto, tem na alma o que ainda não temos: Sabedoria!”

*Posso saber o que está pensando?

*Na crueldade em que nossa sociedade, nossa cultura trata os idosos.

*É muito triste mesmo, aqui ou em casa... A sociedade esconde o idoso porque na verdade não consegue se ver no idoso.

*Sabia que aqui há idosos que não recebem visita da família há mais de 10 anos?

“O abandono é uma queixa muito freqüente nesses casos. Filhos e parentes deixam o idoso no asilo e passam anos sem visitá-lo. Ouve um caso de uma senhora deixada no local pelo filho, com a promessa de que ficaria lá por quinze dias. A justificativa era uma reforma na casa da família, que poderia ser prejudicial à saúde da idosa. Passaram-se nove anos até o dia da entrevista e ela ainda aguardava o dia de voltar pra casa.” (Jaime Luiz Cunha de Souza, professor do Departamento de Sociologia).

*Normalmente as pessoas querem se ver livres. Infelizmente, não entendem que a velhice é uma parte bonita da vida. Às vezes fico pensando que, quando envelhecer, vou querer ir morar numa praia deserta.

*Mas desse jeito estaria fugindo de você mesmo.

*Pois é... Mas tenho certeza que com quase cem anos, ainda estarei me dedicando ao meu trabalho, que tanto amo.

*Cem anos? Você quer viver tudo isso?

*Às vezes acho que cem anos é pouco. A vida para mim é pura magia, tenho medo de perdê-la.

*Você tem medo da morte?

*Não, de jeito nenhum! Já estive diversas vezes diante dela. O que eu temo, é perder a vida, é não poder mais ver o sol, as estrelas, o voar de um pássaro, uma flor...

*Entendo o que você quer dizer.

Voltando ao chá, não pude deixar de observar uma senhora, com o olhar triste, perdido...
Que judiação! Desde que a conheço, ela está esperando o filho que nunca vem. As pessoas deveriam ter um pouco mais de solidariedade.

“Apesar de seu papel desconstrutor, o asilo faz emergir a possibilidade de reconstrução de um novo mundo social para o idoso. Porém, isso acontece em uma dimensão mais restrita. Eles encontram formas de se relacionar, de ter amizades, namoros, como inimizades também. Não podemos dizer que eles têm uma vida social comum porque é como se vivessem num mundo paralelo. Você tem uma vida, mas não é a que tinha antes.” (Jaime Luiz Cunha de Souza, professor do Departamento de Sociologia).

Pensando agora como meu amigo, quero viver cem anos, mas quero viver uma vida e não somente passar por ela. E quando ainda puder e tiver forças, estarei indo visitar meus amigos no asilo, não posso substituir seus filhos, mas posso levar-lhes um pouco da minha alegria e meu interesse onde, eu, mera mortal estarei também me alegrando e usufruindo de suas sabedorias.
Débora F